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Gaveta de Rascunhos

  



Mais um texto daqueles que descobri na gaveta dos rascunhos. Setembro 2011

  Fogo Fátuo

  Pelo ontem traçavam caminho meus passos sem rumo. Meu ser largou amarras junto a um vago cais, para deixar em terra as palavras que meus lábios nunca soltaram. Há um fresco e tresnoitado ar que desperta mistos de felicidade e angústia. De mão dada, vento e mar mostram memórias antigas onde te via voando pela rua. Alguma delas terá tropeçado no meu respirar e caído no rio, junto à borda, para fazer de conta que o todo o sal do oceano veio daqui, deste pequeno recanto entre as pedras por onde correm as minhas mágoas. No turbilhão dos minutos, revoltos como o teu cabelo longo, arrepios quentes percorrem-me o ser ao ritmo das ondas.
  Terra dentro, por onde caminham os homens, há verdes campos por onde espraias tuas tardes e despejas o fogo dos teus olhos feitos mel e incenso. A tua voz vestida de nebelina despe-se em promessas de lua nova enquanto o bater do teu coração se aninha nas minhas mãos. Há esperas no ar espesso de um agora sem antes.
  Nenhum de nós quer olhar atrás. Há sombras que nos perseguem. As nossas próprias! O polvo da memória estende os braços nemésicos tropeçando passadas. Ainda assim caminhamos de olhos postos num horizonte por construir.
  Adensamos o caminho pela nebelina, em esforço calculado. Por cada passo vencido há a tua voz que voa mais longe o grito da chegada. E cada pedra que deixamos atrás será apenas mais um degrau rumo ao sol além núvem.
  Depois também teremos o nosso passado, a nossa memória. E dormiremos pacificados pelo suor da caminhada. E poderei ver finalmente o brilho das tuas asas que agora apenas toco.
  Brilha minha estrela, para que a tua luz me acaricie as horas. Mas não me arrastes de novo para o fogo fátuo e gélido da paixão. Não queiras levar contigo todo o pouco que foi deixado atrás pelos que roubaram pedaços do meu caminho passado.
  Fica apenas aqui ao lado sentada, deixa que o meu futuro te abrace e crucifica-me nos teus braços!

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