Avançar para o conteúdo principal

Cidade Amordaçada

  Paredes decadentes delimitam o passado esquecido; gentes de olhar absorto em ocasional caminhar, ziguezagueiam pelas pedras da calçada sem hora de partir... Entre as perpendiculares fugidias, escondem-se esplanadas cheias de sedentos calores e cansaços de turista. Aqui e ali, junto às sombras que teimam em fugir ao sol, modorram-se mendigos de mão estendida a uma caridade transparente em tom de detergente para consciência. Só os sinos vibram pelo meio-dia as notas de uma repentina brisa que promete mas não cumpre. Pelos recantos e esquinas, perdem-se as vozes dos que nada dizem e misturam-se olhares na amálgama de desejos perdidos em amores derrotados. Irónico, o azul claro do céu paira em equilíbrio sobre os telhados em brasa. Ninguém vive: todos esperam apenas!
  O ranger das rodas dos Eléctricos riscam a pesada tarde na certeza de um caminho cravado no chão. As horas passam invisíveis num contraste evidente com o bater dos corações no meio da modorra e há uma inconsistência de algodão naqueles ponteiros sobre o arco: a sua quietude, alimentada a suores, mede um presente teimoso e nada promete de futuros nem nada recorda do passado. O rio cinza risca um horizonte ocidental e separa os vivos dos mortos em promessas vagas de uma frescura que há-de chegar quando cair a noite e ele se esconder numa improvável fusão entre céu e mar. Só o branco desmaiado dos muros da cidade rasga o silêncio doloroso que faz brilhar todas as pedras da calçada.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Já Não Quero Que a Saudade Regresse!

  Os amigos do princípio eram os companheiros do sonho de infância, povoando o imaginário de aventuras em que do nada se fazia tudo: bastava sonhar! Navegámos dias de todas a cores e, às vezes, tantas, só a preto e branco. Mas o que queríamos mesmo era voar nas asas do sonho. Éramos crianças!   Desses tempos me chegam aguareladas memórias e de quando em vez, um pequeno arrepio de tristeza esfria-me a nuca. De tão novo me ficaram lembranças de companheiros em quem, já tão cedo, vi mares de egoísmos e maldades das que não alcanço lembrar mais do que esse ligeiro frémito. Éramos crianças!   Fomos crescendo e, no meu mundo de aventuras, arrastado às costas da família andarilha, de terra em terra, fui deixando e colhendo em toda a parte saudades. Não lembro nomes. Recordo árvores, mato grosso e escuro, em recantos de aventura; savanas poeirentas, lar de feras; picadas de longos, largos e fundos trilhos; areias escaldantes, mordidas de pinha casuar; mar lúcido, feito esme...

Terras À Vista

Tropeçou meu destino em fim de tarde!  O verde-azul do horizonte enche-se de sangue por entre voos de gaivotas e gritos de dia sem história. Entretanto, meus olhos que, mais do que rios, têm mares infinitos e cristalizam os dias passados em doces memórias, empedreceram nos minutos que foram muros de minhas horas de vida.  De pouco valeu ser mais que gente e menos que bicho: tudo em redor mais não foi que palavra feita vento e sal. Memórias de cada onda que passou meus olhos, inundam a areia onde se espraiam agora as maresias da minha infância.  Só, como todas as horas, deitei corrida ao fim do mundo. Em sonhos, mais que em passada larga e destemida, cheguei quase tarde. Fui certeza e logro que me levou sem destino marcado ao encontro de um outro eu que não aquele. Fiz da noite capa de um destino que não cabia noutro lugar e nem podia: que eu sou feito de outros escuros e outros segredos; de outros mares além dos sete que me juram. Deixei de ser partida e sou, agor...

Margem Sem Rio

  Ouvem-se trombetas leito abaixo: feras de vermelho quase negro, escondidas no silêncio em que os inocentes se despegam dos dias e das horas. De longe ruge a noite dos antigos e treme a madrugada.   Do fundo do meu olhar brotam os tropeços da tempestade que veio matar as estrelas. O escuro cinza remata e tapa o horizonte imaginado de outras horas, de outros dias. Pelas escarpas calam-se ínfimos silêncios e pressente-se o dia que ninguém quer ver nascer.   Ao coração dos homens chega agora o canto de uma deusa feita de ferro e fogo. Os céus revoltam-se contra o mar que dança e desacerta o fim do mundo. A lua feita em quatro cobre-se de um manto de luzes negras e ribombam faíscas em troar de avisos. O néctar da guerra escorre pelas serras e aconchega o último sono dos condenados. O canto da trombetas desfia o ar da madrugada e tinge de gritos o amanhã.   Já foram águas que daqui levaram rios de gente e terra feita aquém-vida e sobretudo, rios de murmúrios. ...