Avançar para o conteúdo principal

Dia Sem História



 Pendurado na manhã, em precário balanço, procuro em vão encontrar um poiso onde deixar cair o desejo de partir. Sobrevoam-me incertezas e sonhos de mares já navegadas por onde cruzar o meu destino. Falta pouco para sentir o vertical picar do sol calando o pio das aves. Atravessa selvagem o rio de carros  ruidoso, a perpendicular da manhã. Pelas calçadas desmaiam os passos em previsão de mais um dia sem história.
 Num banco apenas ensombrado, recontam-se recortes de memória nas figuras de velhos de quem foge o tempo. Ninguém lembra realmente e menos os que fizeram das estradas e caminhos as suas alvoradas e os seus espinhos.
 Pela calçada arrastam-se pressas, sorriem-se desgostos e escondem-se madrugadas de cristal em estudados esgares de vida. Só do contraste da ave contra o azul profundo se esvai o tempo em que todos se afundam. Arde a pele e arrasta-se o meio-dia!
 Da primeira sombra cai de madura a manhã e nos balcões tergiversados em geometria de fome, enfileiram esperas e desesperados descansos em corropio. O relógio chicoteia o fim do repasto e entra a tarde pela porta.
Afunda-se o azul claro para que, esguio, se instale o amarelo alaranjado por entre as púrpuras dos vãos de escada. Escorre a hora e cede passo, relutante, ao bulício do regresso. Pelas esquinas desencontram-se momentos e cora o céu de fatiga.
 O ocaso recolhe despojos do frenesim e abre a porta. Reina a noite!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Já Não Quero Que a Saudade Regresse!

  Os amigos do princípio eram os companheiros do sonho de infância, povoando o imaginário de aventuras em que do nada se fazia tudo: bastava sonhar! Navegámos dias de todas a cores e, às vezes, tantas, só a preto e branco. Mas o que queríamos mesmo era voar nas asas do sonho. Éramos crianças!   Desses tempos me chegam aguareladas memórias e de quando em vez, um pequeno arrepio de tristeza esfria-me a nuca. De tão novo me ficaram lembranças de companheiros em quem, já tão cedo, vi mares de egoísmos e maldades das que não alcanço lembrar mais do que esse ligeiro frémito. Éramos crianças!   Fomos crescendo e, no meu mundo de aventuras, arrastado às costas da família andarilha, de terra em terra, fui deixando e colhendo em toda a parte saudades. Não lembro nomes. Recordo árvores, mato grosso e escuro, em recantos de aventura; savanas poeirentas, lar de feras; picadas de longos, largos e fundos trilhos; areias escaldantes, mordidas de pinha casuar; mar lúcido, feito esme...

Terras À Vista

Tropeçou meu destino em fim de tarde!  O verde-azul do horizonte enche-se de sangue por entre voos de gaivotas e gritos de dia sem história. Entretanto, meus olhos que, mais do que rios, têm mares infinitos e cristalizam os dias passados em doces memórias, empedreceram nos minutos que foram muros de minhas horas de vida.  De pouco valeu ser mais que gente e menos que bicho: tudo em redor mais não foi que palavra feita vento e sal. Memórias de cada onda que passou meus olhos, inundam a areia onde se espraiam agora as maresias da minha infância.  Só, como todas as horas, deitei corrida ao fim do mundo. Em sonhos, mais que em passada larga e destemida, cheguei quase tarde. Fui certeza e logro que me levou sem destino marcado ao encontro de um outro eu que não aquele. Fiz da noite capa de um destino que não cabia noutro lugar e nem podia: que eu sou feito de outros escuros e outros segredos; de outros mares além dos sete que me juram. Deixei de ser partida e sou, agor...

O Circo e a cidade!

Retempero forças perdidas em batalhas que nunca quis pelear. Busco agora as dúvidas que também lá deixei e regresso à certeza dos dias com princípio, meio e fim. Agora já sei que a madrugada morreu no assalto final do sol que desembainhou manhãs e arremessou tardes raiadas de horas coradas contra os escuros minutos que desdormia. E agora também sei que amanhã a batalha continua e a guerra entre mim e a vida será sempre uma interminável comédia onde não cabem papéis principais. Ao cair do pano erguer-se-ão das plateias as almas que de seguida irão representar. Senhoras e Senhores, Meninos e Meninas: o Circo está na cidade!