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Fermento De Tempestade



 Há corropio de gente em azáfama de esperas, os loucos pasmam a raiva com que de noite invadem o inferno em visita de sonhos repetidos. Não há vozes escondidas nas travessas nem olhares trocados por quem passa. Em rosário caminha a cosmopolita mole sem destino: como carreiro de formigas se fintam certezas e se perdem planos. Junto à banca de legumes da esquina, o pregão morre no ar denso da manhã para se juntar ao grito dos sinos. Da calçada chegam passos arrastados contando dores osteopáticas de eras antigas. De uma janela sobra o choro pacífico e largo de criança com fome. Se ora pára algum momento de cansaço, descansam por breve as consciências escondendo revoltas há muito açaimadas.
  Quatro esquinas de gente brotam cinza de céu baixo pelas paredes sem sombra e da pedra das faces sobram rugas de amanhã. Telhados carregados de vermelhos e castanhos viúvos, escondem o postal do turista por trás da câmara para pesar cílios em vã tentativa de despertar as horas.
  Pelas aforas ajuntam-se os ruídos em conjura contra o silêncio que ainda reina pelas vielas e prometem barulho com juros. Revendedeiras ferozes empurram-se na incerteza de encontrar o lugar marcado pelo lápis roído de um qualquer departamento camarário. Adensa-se o suor enquanto se levanta o céu cinza e arremete o sol por entre frestas e janelas.
  Nas bancas de rua cruzam regateios mas tardam acordos; as miradas de dúvida rasgam os minutos e cai descrença por entre o povo. Atiram-se preços ao precipício para que se não perca tudo; os frescos arrepiam de imobilidade para que se unam odores e se marque presença no mundo dos vivos. Raras carteiras se juntam ao pio da fome e arrematam de quando em quando mais um balão de servil oxigénio. Cresce a malta olhando a miséria dançar na rua e apertam magote na presença do comprador em ávido desinteresse faminto. Passa a hora no relógio contraditório. Radiculam-se certezas de que a tarde vai chegar magra e tardia, trazida pelo silêncio que regressa vitorioso às portas da cidade onde se rende agora o povo.
  Na obliquidade da tarde cabisbaixam sonhos e suspiram resignações enquanto pelos cantos apenas iluminados se convocam vozes em sussurro comentário. Surgem fogueiras para afugentar fantasmas, estranhos e outros escuros. Contam-se idos do dia e parlamentam-se revoltas pingadas a parco vinho de taberna. Por fim calam-se as vozes e baixam-se olhares. Ninguém parte. Ninguém parte porque o silêncio da fome faz demasiado barulho!
  Pelo ar nada mais fica do que esse vasto leque de odores que pela manhã derrubou a noite que agora volta desperta pelo crepitar . E o choro: o choro pacífico e largo de uma  criança com fome!

Comentários

  1. Belo. "Entranhador". Único. Não pares de voar, meu amigo!

    abraço: kito

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