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Mensagens

Gaveta de Rascunhos

   Mais um texto daqueles que descobri na gaveta dos rascunhos. Setembro 2011   Fogo Fátuo   Pelo ontem traçavam caminho meus passos sem rumo. Meu ser largou amarras junto a um vago cais, para deixar em terra as palavras que meus lábios nunca soltaram. Há um fresco e tresnoitado ar que desperta mistos de felicidade e angústia. De mão dada, vento e mar mostram memórias antigas onde te via voando pela rua. Alguma delas terá tropeçado no meu respirar e caído no rio, junto à borda, para fazer de conta que o todo o sal do oceano veio daqui, deste pequeno recanto entre as pedras por onde correm as minhas mágoas. No turbilhão dos minutos, revoltos como o teu cabelo longo, arrepios quentes percorrem-me o ser ao ritmo das ondas.   Terra dentro, por onde caminham os homens, há verdes campos por onde espraias tuas tardes e despejas o fogo dos teus olhos feitos mel e incenso. A tua voz vestida de nebelina despe-se em promessas de lua nova enquanto o bater do teu...

To Be, But Not To Be

  As minhas sementes de futuro perderam-se na enxurrada de uma tempestade da vida. Os sonhos que portavam secaram a penugem e criaram belas, viçosas, penas de uma vida por gastar. Por entre os cachos de luz, pendurados pela ramagem colorida,  gotículas de espaço transvasam a felicidade de copo em copo e criam-se os momentos por onde se arrastam os que nunca souberam dizer que as coisas têm mais que ser, do que aquelas que nos mostraram quando nasceram, elas e nós.   Ficamos prisioneiros da imobilidade que nos parece saber mais do que as respostas que procuramos, entre o sonho e a realidade. Fizemos um mundo feito de nós e perdemos, no entretanto , tudo aquilo que desejámos alguma vez ter, porque tivemos e depois cuspimos fora, como quem cospe, impune, sobre as ondas do mar. Aconchega-nos a certeza de que um dia, seremos mais do que aquilo que sonhamos. Ou menos! Em todo o caso, mais do que o que nos prometeram e não cumpriram.   Nada importa porém; são ma...

Fermenta a Cidade!

  O outro lado da vida cascadeia ao longe e o ar traz-me de rastos, as Notícias de uma manhã plasmática!   Esta cinza que me acompanha os minutos de torpor, espalha-se pelo meu ser como areia movediça. Perde-se o som da rua, aplastrado contra o solo da manhã humedecida. Descambam momentos pela ladeira rodeados de auras embaciadas. No resto de um quase nada de sol, cintilam "bons dias" entre o mendigo e a figura de uma eclésia civil. O motor desafinado rasga uma tentativa de vida junto a um semáforo. Não se escuta o desbragar das sirenes do costume. Ninguém pode cair se já está no chão.   Desagua na foz da hora, o braço curto dos minutos.

As Asas De Uma Galáxia

  Desesperamos pelo medo de vermos o sonho ser lapidado pela realidade crua com que se vestem as auroras. Perdemos o sentido no rodopio da flor do vento e deixamos negra e fugidia a figura que limitou o destino encalhar nas costas do mar de noites em vão. Somos apenas um nem-grão-de-areia na esfera que se perde na imensidão de uma glória feita de minutos que carregam séculos. Cada hora espraia seu cântico nas cordas do bater de alma com que os vivos se derrotam a si mesmos.   Já quase somos o quase nada que seremos depois do fim dos dias. Caminhamos de mãos dadas com o esquecimento e fazemos juras de fidelidade a destinos que sabemos nunca nos vir visitar. Resta olhar a maré dos dias que nunca acabam em noite e das noites que nunca dasaguam na foz da manhã.   No céu incolor que as nossas asas ciam, nem deixamos o rasto do ar que respiramos, rarefeito na sua perfeita  e imota cronologia. Somos cada dia um nada mais pequeno e invisível, mergulhado numa imensa galáxia...

O Circo e a cidade!

Retempero forças perdidas em batalhas que nunca quis pelear. Busco agora as dúvidas que também lá deixei e regresso à certeza dos dias com princípio, meio e fim. Agora já sei que a madrugada morreu no assalto final do sol que desembainhou manhãs e arremessou tardes raiadas de horas coradas contra os escuros minutos que desdormia. E agora também sei que amanhã a batalha continua e a guerra entre mim e a vida será sempre uma interminável comédia onde não cabem papéis principais. Ao cair do pano erguer-se-ão das plateias as almas que de seguida irão representar. Senhoras e Senhores, Meninos e Meninas: o Circo está na cidade!

Horas

Brutal como todas as verdades, a relativa velocidade de um ponteiro que marca as horas no relógio da vida é sempre um lugar vazio por onde passam os minutos. Confunde-se o momento de sono com a manhã cheia de futuro que não cabe nos lugares por onde caminham os vivos. Os sonhos ficam pendurados na madrugada para que as horas não se percam na memória quebrada!

O relógio que agora me acompanha e me faz contar o tempo

    Nem sei como escrever as palavras que não servem de tinta ao pincel que corre pela tela de que se faz o meu presente. Perco a hora por entre os ponteiros que marcam os traços de que é feita a minha vida. E não me sobra nada mais! Nem o relógio que até agora mediu os meus dias!   Perdi-me! Como se se perderam todos os homens antes de mim e se haverão de perder todos os que hão-de vir! Pelo caminho quis deixar sinais e setas que aos meus indicassem o caminho por onde passa o passo que não tropeça. Sei que o meu sonho tem mais poder do que eu e que nenhum de nós será um dia mais do que aquilo que fez com que possamos ser mais gente, nesse dia, para além das coisas em que nos fizeram acreditar. Venderam a minha alma e nunca perguntaram se eu tinha fome.   Viram-me passar por entre as lágrimas como um marinheiro que tende a vela por onde passa o vento que navega a eternidade. Fecharam as portas por onde entrava o ar que fazia de mim o sonho de ser tudo o que ma...

A casa

  Se não fosse pelas paredes cobertas de prisão e pautadas de janelas com portas por onde foge um destino e entra outro, não haveria casas. O medo da solidão percorre os raios de luminosidade por onde passa a memória que desiste de pendurar-se no acaso. Pede que lhe digam ao ouvido que aquele lugar é só seu. Nos seus silêncios se perde a certeza de ser-se apenas e só quem se é. Não há lugar para rumores nas eternidades que invadem o espaço entre paredes. Nem os sonhos escapam da prisão. São horas de ter que ser mais do que que aquilo que somos e um pouco mais ainda daquilo que queremos ser. A casa é o medo do futuro: a tremura perante as ferozes garras que ameaçam o dia com que havemos de nos descobrir. A casa é tudo aquilo que cada um sonha mas que sabe que não existir além de si.   Permanente como a certeza de que morremos todos, o sonho cresce como se possível fosse que um dia, tudo se arranje de forma a que o destino se confronte, cara a cara, consigo mesmo. A casa é...

Regresso

São os dias que contam, não as horas. Dentro das almas há suor que escorre de um fazer por ainda não ter sido feito. A multidão escondida entre os sons da cidade, ecoa passos pela noite descoberta, como se a luz do dia tivesse  deixado rasto. As paredes já não entornam o amarelo com que demarcam o escuro da vida que agora se junta, em rito de acasalamento, com as luzes da cidade. Insinua-se o negrume pelos recantos que acarinham as pedras da calçada cintilantes de passado, para deixar no ar fresco, pedaços de memória regados a morrinha de fim de Estio. Os homens esquecem que a satisfação é inimiga da criação e empanturram-se de dias largos de suor, para para poderem vangloriar-se da vida que se lhes escapa por entre os dedos.  Os crentes olham agora mais uma certeza quando passam pelas escadas da igreja, onde se espraiam outras almas na espera de algum transeunte que lhes compre um pouco de paz, em troco de uma esmola. Há sempre lugar para mais um, que ali chega por ...

Chuva de Verão

  As paredes brilham, inclinadas pelo chão molhado da chuva. Os seus olhos contrastam o céu cinza e buscam vozes no ar da tarde por onde caminha: nem mira o reflexo pelas montras como gosta de fazer.   Quem a vir julgará os seus passos pelo silêncio que gritam no ar, espelho da fronte enrugada que lhe coroa a face branca. À sua volta desabrocham passados  como flores de um monte no verão enquanto ressurgem vontades e desejos de a ver pairar como antes. Esticam-se as almas pelos estendais da velha Alfama. Só ela passa debaixo da morrinha!   Pelo final da tarde, quando mais ninguém se lembrar da chuva e o sol lograr apagar da calçada as cópias dos prédios, ouvir-se-ão os sinos de S. Miguel em anunciado desespero por fiéis moribundos. Dos cantos e portas escuras, saltará gente ao magote e o chilreio dos pássaros fará com que a esqueçam até à hora de jantar. Depois ela será conversa. Apenas conversa de final de dia e rumor de regresso.   Chega a casa sem sab...

Fermento De Tempestade

 Há corropio de gente em azáfama de esperas, os loucos pasmam a raiva com que de noite invadem o inferno em visita de sonhos repetidos. Não há vozes escondidas nas travessas nem olhares trocados por quem passa. Em rosário caminha a cosmopolita mole sem destino: como carreiro de formigas se fintam certezas e se perdem planos. Junto à banca de legumes da esquina, o pregão morre no ar denso da manhã para se juntar ao grito dos sinos. Da calçada chegam passos arrastados contando dores osteopáticas de eras antigas. De uma janela sobra o choro pacífico e largo de criança com fome. Se ora pára algum momento de cansaço, descansam por breve as consciências escondendo revoltas há muito açaimadas.   Quatro esquinas de gente brotam cinza de céu baixo pelas paredes sem sombra e da pedra das faces sobram rugas de amanhã. Telhados carregados de vermelhos e castanhos viúvos, escondem o postal do turista por trás da câmara para pesar cílios em vã tentativa de despertar as horas. ...

Dia Sem História

 Pendurado na manhã, em precário balanço, procuro em vão encontrar um poiso onde deixar cair o desejo de partir. Sobrevoam-me incertezas e sonhos de mares já navegadas por onde cruzar o meu destino. Falta pouco para sentir o vertical picar do sol calando o pio das aves. Atravessa selvagem o rio de carros  ruidoso, a perpendicular da manhã. Pelas calçadas desmaiam os passos em previsão de mais um dia sem história.  Num banco apenas ensombrado, recontam-se recortes de memória nas figuras de velhos de quem foge o tempo. Ninguém lembra realmente e menos os que fizeram das estradas e caminhos as suas alvoradas e os seus espinhos.  Pela calçada arrastam-se pressas, sorriem-se desgostos e escondem-se madrugadas de cristal em estudados esgares de vida. Só do contraste da ave contra o azul profundo se esvai o tempo em que todos se afundam. Arde a pele e arrasta-se o meio-dia!  Da primeira sombra cai de madura a manhã e nos balcões tergiversados em geometria de fo...

Porta de Ti

 Quantos dias ficarão por esquecer quando tudo à tua volta te fizer perder a calma? Quantas horas em vão passarão pelo relógio do teu bater cardíaco antes que possas olhar-te no espelho e gritar: não posso mais?  Os olhares destroçados em silêncio e vazio atropelam desejos interiores enquanto te perdes em horizontes ardendo de ti. Nas tuas mãos treme ainda o odor da derrota de um amor desfeito em migalhas de céu. E só tu sabes que o jardim de casa já não tem aquele canto onde te escondias para chorar as lágrimas que lá dentro evitavas... E nem as árvores te ensombram agora o braseiro em que ardes por dentro.  Pelos corredores estreitados da tua prisão cambaleias os dias numa surdez muda de que não tens memória. Olhas mas não vês; ouves e não escutas; tocas e não sentes... As paredes, os quadros, tudo te parece agora despejado e nu. E ficas de pé, à porta de ti mesma, olhando sem perdoar a culpa que te juras mas que eu sei não ser só tua.  Abre-a! Abre essa porta e...

A Musa

Há, no torpor das noites, minutos de sonho que queria gravar fundo no meu acordar para lembrar-me mil vezes ao dia. É o sol do teu sorriso que fustiga a alvorada como um meio-dia tropical. A tua pele deixa-me sonhos de África no cheiro da terra vermelha. Caminho por entre os teus cabelos, pendurado no teu olhar e no horizonte absoluto de um futuro impossível, descubro velas erguidas em louvor de ti. Já não basta respirar: preciso ver-te! A manhã escorre lenta e pressurosa rumo ao zénite. No alçado correr do sangue espalham-se, como chispas incandescentes, repentes de ti e a memória ainda viva sorri momentos de aconchego. Pergunto tantas vezes: porquê musa minha me deleitas as noites e me abandonas os dias? Nos momentos indecisos, pairando entre horas, perco o caminho e cambaleio sem destino. No antigo porto, junto às carcaças de velhos navios que em silêncio contam histórias dos Sete Mares deixo-me ficar, em contemplado mirar de horizontes, perdido entre as agora ténues memórias do ...

Cidade Amordaçada

  Paredes decadentes delimitam o passado esquecido; gentes de olhar absorto em ocasional caminhar, ziguezagueiam pelas pedras da calçada sem hora de partir... Entre as perpendiculares fugidias, escondem-se esplanadas cheias de sedentos calores e cansaços de turista. Aqui e ali, junto às sombras que teimam em fugir ao sol, modorram-se mendigos de mão estendida a uma caridade transparente em tom de detergente para consciência. Só os sinos vibram pelo meio-dia as notas de uma repentina brisa que promete mas não cumpre. Pelos recantos e esquinas, perdem-se as vozes dos que nada dizem e misturam-se olhares na amálgama de desejos perdidos em amores derrotados. Irónico, o azul claro do céu paira em equilíbrio sobre os telhados em brasa. Ninguém vive: todos esperam apenas!   O ranger das rodas dos Eléctricos riscam a pesada tarde na certeza de um caminho cravado no chão. As horas passam invisíveis num contraste evidente com o bater dos corações no meio da modorra e há uma inconsistên...

Terra Oblivion

  Em territórios obsoletos da minha memória vivem fantasmas! Vejo-os em sonhos, quando em desespero de causa tenho que regressar. Monstruosos seres escuros que me bafejam o pescoço e me gritam arrepios ao ouvido como se riscassem vidro. Conheço vagamente aquelas memórias flutuantes e nalgumas revejo infernos dantescos por onde um dia passei. Nem sei, às vezes, se foi real ou apenas pesadelo. Quero partir mas os monstros não deixam. E nem lhes tenho medo! Muito pelo contrário: bem gostaria que me confrontassem para os poder olhar bem nos olhos e então, pura e simplesmente, apagá-los! Mas já falta pouco: o Destino não tarda aí!   E quando chegar, há-de levar-me nas suas asas até futuros transparentes, plenos de horizontes longínquos de onde chegam as vozes encharcadas de melodia que me atravancam a esperança de chegar ao porto que já vislumbro atrás daquela névoa. Por agora há que derrotar os monstros!   Depois há que voar! Voar até que se me gastem as asas!

São poucas as palavras nesta hora! Mas são tuas!

Vou, talvez, dormir: acalmar o formigueiro que me rói todo o corpo como se quisesse levar-me a alma. Quantas vezes é preciso morrer? Sei que tenho que levantar-me cedo: tenho uma revolução para fazer! Mas que importa a hora se nem vou poder fechar os olhos? E não é a Bastilha que me chama! Eś tu, que não devias ser! Prometeu-me o Destino, senhor de todos os caminhos, que não havias de ser! E portanto falha!

Bem: isto é complicado!

  Hoje, que somos muitos e temos pouco tempo, olho atrás para ver reconhecer apenas a razão do fim! De nada me valeu a vida! Já sabia de tudo: que ainda não conseguia andar mas afinal corria; que não sabia caminhar e afinal voava; que não podia falar, mas dizia... Tantas e tantas coisas que não cabem nas palavras que um deus coloca na vida!   Agora, que já ninguém tem tempo para escutar tudo isto que deliro, quando me olho de cima porque não podia chegar mais fundo... Agora digo: cada momento da minha vida é só um pouco da minha morte!

Idos De Julho Em Lisboa

  A cidade estremece de modorra. Pelo dentro dos quintais se esconde a fresca tarde. Lá fora queima a sombra até! O caminho passeado lento, desencontra-se das figuras cruzadas e as almas deambulam pela massa de ar quente em ofegante necessário. Pouco resta do meio dia! E pouco menos falta para ficar mais calor.   Ao fundo da rua, pelos lados de S. Domingos estendem-se pela sombra da velha oliveira as africanas saudades da acácia espinhosa e o chão de brilho solar cega e dói. Até o Rossio parece não querer ali ninguém!   E nós? Que fazemos aqui? Há promessas escondidas nos nossos passos e dentro de nós salta o desejo de jurar. E calamos o dizer em troca de  um leve roçar de pele. Um arrepio fresco troca-nos os olhares no meio deste deserto. Partiremos daqui, algum dia?   Miramos a terra como se fosse mar e tranparentam-se as fachadas para deixar passar o horizonte. Há mastros no cais! Serão do navio que nos há-de levar? Em murmurado silêncio nos sentamos na solei...

Uma Sereia No Fim Do Mundo!

   Abre as portas com fúria o vendaval! Entrando, ruge o mar salgado, iroso e imparável; tormentam-se as ondas que estendem nos braços uma sereia de manso olhar. Agargantam-se os olhares do povo extasiado. Recua-se um passo empurrado pelo bater cavalgado do coração. O cordame naval range cascos no cais; revoltam-se os navios! Querem partir, ir com a sereia!   Junto à borda, pelos cantos do vento, caminha impávida a figura sombreada do Destino. Pelas arribas o povo treme e recua ainda! Não sabem, coitados, que nada podem fazer! Sim, porque ao Destino pouco importa: quem parte ou quem fica!    Aos joelhos baixam os crentes, elevando em preces as mãos ao céu negro e furibundo. Há perdão rogado em todas as vozes, junta-se o sal das lágrimas ao mar salgado. É o fim do mundo!