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Inferno



Que dias estes em que me sobram horas. Momentos de nada fazer, pedaços de eternidade ínfima atravessados numa tarde feita de inferno. Brutal manhã que jaz a meus pés, senhora de um futuro em que se não contam tempos. Palavras que se derretem na brisa morna que não me acalma a alma. Escorrem minutos como se fossem horas, dias.

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Domingo na Cidade

As ruas desertas mostram a nudez das horas. Um silêncio familiar atravessa os raios de sol mortiço que iluminam os entre-olhares dos recém amantes sentados pelos bancos da praça. Há promessas para nunca cumprir e o sempre que se sussurra não passa de uma jura inocente de que a primavera vai durar para a eternidade. Pelo correr das horas dir-se-ia que o peso do ar não deixa passar o dia.
  Num banco de jardim, cercado de andorinhões, os meus olhos prendem-se ao fio do horizonte na boca do rio e finge grades férreas nas colunas de uma ponte suspensa das nuvens. A cinza abafada do céu acinzenta os gestos de quem passa e apenas eu testemunho. a primavera.

As Asas De Uma Galáxia

Desesperamos pelo medo de vermos o sonho ser lapidado pela realidade crua com que se vestem as auroras. Perdemos o sentido no rodopio da flor do vento e deixamos negra e fugidia a figura que limitou o destino encalhar nas costas do mar de noites em vão. Somos apenas um nem-grão-de-areia na esfera que se perde na imensidão de uma glória feita de minutos que carregam séculos. Cada hora espraia seu cântico nas cordas do bater de alma com que os vivos se derrotam a si mesmos.
  Já quase somos o quase nada que seremos depois do fim dos dias. Caminhamos de mãos dadas com o esquecimento e fazemos juras de fidelidade a destinos que sabemos nunca nos vir visitar. Resta olhar a maré dos dias que nunca acabam em noite e das noites que nunca dasaguam na foz da manhã.
  No céu incolor que as nossas asas ciam, nem deixamos o rasto do ar que respiramos, rarefeito na sua perfeita  e imota cronologia. Somos cada dia um nada mais pequeno e invisível, mergulhado numa imensa galáxia feita de pequenos n…

Bem: isto é complicado!

Hoje, que somos muitos e temos pouco tempo, olho atrás para ver reconhecer apenas a razão do fim! De nada me valeu a vida! Já sabia de tudo: que ainda não conseguia andar mas afinal corria; que não sabia caminhar e afinal voava; que não podia falar, mas dizia... Tantas e tantas coisas que não cabem nas palavras que um deus coloca na vida!
  Agora, que já ninguém tem tempo para escutar tudo isto que deliro, quando me olho de cima porque não podia chegar mais fundo... Agora digo: cada momento da minha vida é só um pouco da minha morte!