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Cidade Amordaçada

  Paredes decadentes delimitam o passado esquecido; gentes de olhar absorto em ocasional caminhar, ziguezagueiam pelas pedras da calçada sem hora de partir... Entre as perpendiculares fugidias, escondem-se esplanadas cheias de sedentos calores e cansaços de turista. Aqui e ali, junto às sombras que teimam em fugir ao sol, modorram-se mendigos de mão estendida a uma caridade transparente em tom de detergente para consciência. Só os sinos vibram pelo meio-dia as notas de uma repentina brisa que promete mas não cumpre. Pelos recantos e esquinas, perdem-se as vozes dos que nada dizem e misturam-se olhares na amálgama de desejos perdidos em amores derrotados. Irónico, o azul claro do céu paira em equilíbrio sobre os telhados em brasa. Ninguém vive: todos esperam apenas!
  O ranger das rodas dos Eléctricos riscam a pesada tarde na certeza de um caminho cravado no chão. As horas passam invisíveis num contraste evidente com o bater dos corações no meio da modorra e há uma inconsistência de algodão naqueles ponteiros sobre o arco: a sua quietude, alimentada a suores, mede um presente teimoso e nada promete de futuros nem nada recorda do passado. O rio cinza risca um horizonte ocidental e separa os vivos dos mortos em promessas vagas de uma frescura que há-de chegar quando cair a noite e ele se esconder numa improvável fusão entre céu e mar. Só o branco desmaiado dos muros da cidade rasga o silêncio doloroso que faz brilhar todas as pedras da calçada.

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